Acessibilidade no Cinema: Ainda Tem Barreiras?

Acessibilidade, Evento 02/04/2026
Acessibilidade no Cinema: Ainda Tem Barreiras?

Imagina você chegar num cinema animado para ver o filme mais esperado do ano — e não conseguir nem entrar na sala por falta de rampa. Ou sentar em um lugar tão próximo da tela que sua visão e pescoço sofrem durante toda a sessão.

 

Esse é o tipo de situação que a PNAC — Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas, realizado pela Acessara em parceria com Warner Bros. Pictures e Universal Pictures, foi investigar de forma inédita no Brasil.

 

A pesquisa ouviu 1.008 pessoas de todo o país entre julho e outubro de 2025 — mais de 500 delas com alguma deficiência. Os dados revelam o que muita gente já sente na pele, mas que raramente aparece em estatísticas: chegar à sala de cinema ainda não é simples para todo mundo.

 

O que é acessibilidade arquitetônica no cinema?

Antes de falar dos dados, vale entender o que estamos chamando de acessibilidade arquitetônica. É tudo que diz respeito ao espaço físico do cinema: rampas, elevadores, corrimãos, piso tátil, banheiros adaptados, vagas de estacionamento acessíveis e a disposição dos assentos dentro da sala.

 

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a norma técnica ABNT NBR 9050 estabelecem que esses espaços devem ser acessíveis. Mas a lei no papel nem sempre é a lei na prática.

 

O que os dados mostram: barreiras para chegar à sala

Uma das perguntas mais reveladoras da pesquisa foi sobre as principais barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência para chegar à sala de cinema. O resultado mostra que mais de 70% dos respondentes com deficiência relatam algum tipo de barreira — e a arquitetônica aparece entre as mais citadas.

As barreiras arquitetônicas — definidas na pesquisa como ausência de rampas, elevadores, corrimão, piso tátil ou salas com cadeiras removíveis para cadeirantes — afetam 31,4% dos respondentes com deficiência. Elas aparecem como o quarto tipo de barreira mais mencionado, mas esse número precisa ser lido com atenção: estar em quarto lugar não significa ser um problema pequeno.

“Essas barreiras mostram que o espaço físico ainda exclui. Não por acidente — por ausência de planejamento inclusivo.”

As barreiras mais citadas foram, em ordem:

  • 1º lugar: Acessibilidade comunicacional: falta de sinalização clara, materiais em braille ou funcionários preparados para orientar — 47,5%
  • 2º lugar: Acessibilidade física: calçadas irregulares, transporte público inadequado, falta de vagas acessíveis para estacionar — 40,5%
  • 3º lugar: Acessibilidade atitudinal: falta de preparo, empatia ou respeito dos funcionários e frequentadores — 38,2%
  • 4º lugar: Acessibilidade arquitetônica: ausência de rampas, elevadores, corrimão, piso tátil ou salas adaptadas para cadeirantes — 31,4%

Um detalhe importante: apenas 26,6% dos respondentes disseram não ter encontrado nenhuma barreira. Ou seja, a maioria encontrou ao menos uma dificuldade no caminho até a sala.

 

O problema dos assentos: juntos, mas separados?

Uma das questões mais práticas da acessibilidade arquitetônica dentro das salas é a disposição dos assentos — especialmente para quem usa cadeira de rodas ou precisa de espaço adicional.

A notícia boa: cerca de dois terços (65%) dos respondentes afirmaram conseguir assistir à sessão junto com quem os acompanha, sem precisar se sentar separados.

A notícia que merece atenção: 17% relataram que precisam trocar de lugar ou sentar separados dos acompanhantes — uma experiência que vai muito além do desconforto físico. É uma questão de dignidade e pertencimento.

 

Sentar separado de quem você foi ao cinema pode parecer um detalhe. Mas para uma pessoa que já enfrenta barreiras só para chegar até ali, é mais uma coisa que lembra que o espaço não foi pensado para ela.

 

O conforto e a posição na sala

Os respondentes da pesquisa também foram além dos dados quantitativos e compartilharam experiências em texto aberto. Entre os relatos relacionados à infraestrutura física da sala, dois problemas apareceram com frequência:

 

  • Assentos para cadeirantes muito próximos à tela, causando dor no pescoço ou desconforto prolongado.
  • Fileiras reservadas sempre embaixo, limitando a visão da tela.
  • Dificuldade de locomoção dentro da sala com pouca iluminação.
  • Falta de rampas ou acesso adequado entre as fileiras.

 

Esses relatos mostram que, mesmo quando o espaço existe, ele pode não ter sido projetado com real cuidado para quem vai usá-lo. Ter uma área para cadeirantes não é o mesmo que ter uma área bem posicionada, confortável e inclusiva.

 

O sentimento de quem frequenta: insegurança e exclusão

Um dado que coloca tudo em perspectiva: quando a pesquisa perguntou sobre o sentimento de autonomia e acolhimento ao ir ao cinema, os números entre pessoas com e sem deficiência foram completamente diferentes.

Isso significa que quase metade (45%) das pessoas com deficiência que participaram da pesquisa carregam algum grau de insegurança ou exclusão toda vez que decidem ir ao cinema. Um espaço que para muitos é lazer e entretenimento, para essas pessoas ainda exige coragem e preparação.

As pessoas com deficiência visual e com TEA (Transtorno do Espectro Autista) foram as que mais relataram esses sentimentos negativos — 52% e 51%, respectivamente.

Para pessoas com deficiência física, o índice foi de 46%. Para pessoas com deficiência auditiva, 40% — o menor entre os grupos, mas ainda expressivo.

 

O direito à meia-entrada: garantido no papel, nem sempre na prática

Um aspecto diretamente ligado à experiência no espaço físico é a garantia da meia-entrada para pessoas com deficiência — um direito assegurado por lei no Brasil.

A maioria (55%) relatou que o direito é respeitado. Mas 31% já enfrentaram problemas para efetivar esse direito — uma proporção alta para algo que é obrigação legal, não favor.

 

O que precisa mudar?

Os dados da pesquisa apontam caminhos claros para tornar os cinemas brasileiros mais acessíveis do ponto de vista físico e arquitetônico:

 

  • Garantir rampas, elevadores e piso tátil em todos os espaços do cinema, não apenas nas entradas principais.
  • Revisar o posicionamento dos assentos para cadeirantes — próximos à tela não é inclusivo, é excludente.
  • Assegurar que a área reservada para PcD permita que acompanhantes sentem junto, sem necessidade de separação.
  • Treinar as equipes para orientar pessoas com deficiência de forma respeitosa e eficiente dentro dos espaços.
  • Garantir que o direito à meia-entrada seja cumprido com facilidade, sem criar situações constrangedoras.

 

Cinema acessível não é uma adaptação especial. É apenas um cinema que funciona para todo mundo.

 

Um cinema de verdade para todos

O PNAC chegou com dados, mas por trás de cada percentual há uma pessoa que quis simplesmente assistir a um filme e encontrou uma barreira no caminho.

O Brasil tem mais de 14 milhões de pessoas com deficiência. O cinema é uma das atividades culturais mais consumidas no país. Fazer com que esses dois mundos se encontrem de verdade não é luxo — é a realização de um direito.

A Acessara acredita que a inclusão acontece na experiência, não apenas na lei. E é por isso que o PNAC existe: para transformar dados em conhecimento, e conhecimento em mudança real.

A WAT une forças com a Acessara para tornar os cinemas e outros espaços culturais do Brasil mais acessíveis para todos.

 

Fonte: Relatório PNAC – Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas, Edição 2025. Disponível no site da Acessara.

Realização: Acessara – Hub de Acessibilidade  |  Parceria: Warner Bros. Pictures e Universal Pictures