Imagina você chegar num cinema animado para ver o filme mais esperado do ano — e não conseguir nem entrar na sala por falta de rampa. Ou sentar em um lugar tão próximo da tela que sua visão e pescoço sofrem durante toda a sessão.
Esse é o tipo de situação que a PNAC — Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas, realizado pela Acessara em parceria com Warner Bros. Pictures e Universal Pictures, foi investigar de forma inédita no Brasil.
A pesquisa ouviu 1.008 pessoas de todo o país entre julho e outubro de 2025 — mais de 500 delas com alguma deficiência. Os dados revelam o que muita gente já sente na pele, mas que raramente aparece em estatísticas: chegar à sala de cinema ainda não é simples para todo mundo.
Antes de falar dos dados, vale entender o que estamos chamando de acessibilidade arquitetônica. É tudo que diz respeito ao espaço físico do cinema: rampas, elevadores, corrimãos, piso tátil, banheiros adaptados, vagas de estacionamento acessíveis e a disposição dos assentos dentro da sala.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a norma técnica ABNT NBR 9050 estabelecem que esses espaços devem ser acessíveis. Mas a lei no papel nem sempre é a lei na prática.
Uma das perguntas mais reveladoras da pesquisa foi sobre as principais barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência para chegar à sala de cinema. O resultado mostra que mais de 70% dos respondentes com deficiência relatam algum tipo de barreira — e a arquitetônica aparece entre as mais citadas.
As barreiras arquitetônicas — definidas na pesquisa como ausência de rampas, elevadores, corrimão, piso tátil ou salas com cadeiras removíveis para cadeirantes — afetam 31,4% dos respondentes com deficiência. Elas aparecem como o quarto tipo de barreira mais mencionado, mas esse número precisa ser lido com atenção: estar em quarto lugar não significa ser um problema pequeno.
“Essas barreiras mostram que o espaço físico ainda exclui. Não por acidente — por ausência de planejamento inclusivo.”
As barreiras mais citadas foram, em ordem:
Um detalhe importante: apenas 26,6% dos respondentes disseram não ter encontrado nenhuma barreira. Ou seja, a maioria encontrou ao menos uma dificuldade no caminho até a sala.
Uma das questões mais práticas da acessibilidade arquitetônica dentro das salas é a disposição dos assentos — especialmente para quem usa cadeira de rodas ou precisa de espaço adicional.
A notícia boa: cerca de dois terços (65%) dos respondentes afirmaram conseguir assistir à sessão junto com quem os acompanha, sem precisar se sentar separados.
A notícia que merece atenção: 17% relataram que precisam trocar de lugar ou sentar separados dos acompanhantes — uma experiência que vai muito além do desconforto físico. É uma questão de dignidade e pertencimento.
Sentar separado de quem você foi ao cinema pode parecer um detalhe. Mas para uma pessoa que já enfrenta barreiras só para chegar até ali, é mais uma coisa que lembra que o espaço não foi pensado para ela.
Os respondentes da pesquisa também foram além dos dados quantitativos e compartilharam experiências em texto aberto. Entre os relatos relacionados à infraestrutura física da sala, dois problemas apareceram com frequência:
Esses relatos mostram que, mesmo quando o espaço existe, ele pode não ter sido projetado com real cuidado para quem vai usá-lo. Ter uma área para cadeirantes não é o mesmo que ter uma área bem posicionada, confortável e inclusiva.
Um dado que coloca tudo em perspectiva: quando a pesquisa perguntou sobre o sentimento de autonomia e acolhimento ao ir ao cinema, os números entre pessoas com e sem deficiência foram completamente diferentes.
Isso significa que quase metade (45%) das pessoas com deficiência que participaram da pesquisa carregam algum grau de insegurança ou exclusão toda vez que decidem ir ao cinema. Um espaço que para muitos é lazer e entretenimento, para essas pessoas ainda exige coragem e preparação.
As pessoas com deficiência visual e com TEA (Transtorno do Espectro Autista) foram as que mais relataram esses sentimentos negativos — 52% e 51%, respectivamente.
Para pessoas com deficiência física, o índice foi de 46%. Para pessoas com deficiência auditiva, 40% — o menor entre os grupos, mas ainda expressivo.
Um aspecto diretamente ligado à experiência no espaço físico é a garantia da meia-entrada para pessoas com deficiência — um direito assegurado por lei no Brasil.
A maioria (55%) relatou que o direito é respeitado. Mas 31% já enfrentaram problemas para efetivar esse direito — uma proporção alta para algo que é obrigação legal, não favor.
Os dados da pesquisa apontam caminhos claros para tornar os cinemas brasileiros mais acessíveis do ponto de vista físico e arquitetônico:
Cinema acessível não é uma adaptação especial. É apenas um cinema que funciona para todo mundo.
O PNAC chegou com dados, mas por trás de cada percentual há uma pessoa que quis simplesmente assistir a um filme e encontrou uma barreira no caminho.
O Brasil tem mais de 14 milhões de pessoas com deficiência. O cinema é uma das atividades culturais mais consumidas no país. Fazer com que esses dois mundos se encontrem de verdade não é luxo — é a realização de um direito.
A Acessara acredita que a inclusão acontece na experiência, não apenas na lei. E é por isso que o PNAC existe: para transformar dados em conhecimento, e conhecimento em mudança real.
A WAT une forças com a Acessara para tornar os cinemas e outros espaços culturais do Brasil mais acessíveis para todos.
Fonte: Relatório PNAC – Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas, Edição 2025. Disponível no site da Acessara.
Realização: Acessara – Hub de Acessibilidade | Parceria: Warner Bros. Pictures e Universal Pictures